26 de out de 2009

Falando Sozinho sobre Patrimônio

por Luiz Eduado, do Dono do Armazém


Bendito dia que eu fui me meter com esse tal de Patrimônio.

Ele bate na porta da gente e não quer mais sair.

Ele fala, fala e não para enquanto a gente não entende do que ele está falando.

Parece irmão chato que enquanto não atende não para de infernizar tua vida.

Eu era feliz sem entender de patrimônio, agora sou feliz entendendo dele, mas é meio socialista querer levar todos para o Lado Negro da Força?

Eu só quero que você entenda que sem memória não somos nada.

Blá, blá, blá pras criancinhas de 6 anos que temos que aplicar Educação Patrimonial. Legal pros pré-adolescentes que acham que entenderam a mensagem. E o fim do mundo pra qualquer construtor.

Se você tivesse um limão você faria uma limonada? Mas e se eu te disser que com o preço de um limão você compra duas carambolas e o suco de carambola é mais caro?

Tá, me perdi.

O fato é que eu luto por uma causa perdida. Aquela lá do Patrimônio, lembra?

- Bacana aquele prédio antigo, diz o menino.

- Ali morou seu avô, diz o adulto.

Quando a gente preserva um prédio não é o prédio em si que se quer preservar, mas a memória.

Papo de doido esse de preservar a memória, mas é a verdade.

Quem somos nós sem memória?

Se agora eu tivesse uma amnésia, perdesse todas minhas referências: quem sou, onde moro, o que sei, que língua eu falo, quem são meus parentes e amigos... Esse não seria eu. A minha memória faz quem eu sou.

É complicado falar que os patrimônios materiais são retratos da memória. Mais que retratos, não são apenas pra se ver, eles são protegidos para se viver a memória.

Lá vem ele de novo com essa conversinha fiada de que devo freqüentar o museu.

Ah, quem dera se a metodologia de museu funcionasse. Não basta você ver, você tem que sentir.

Sentir a rua que você passa, sentir as pessoas que você conhece, sentir a história, a comida, o cheiro, as palavras.

Como se preserva uma dança, uma música, um acarajé?

Eles fazem parte da memória.

Eles são a identidade.

São números de registro não civil. Registrados na nossa alma.

Proteger o patrimônio não é falar: tira a mão disso ai que é tombado, é protegido.

É falar: cuida disso ai pra poder chamar seus filhos pra vir experimentar também.

Ridículo é dizer que se engessa uma cidade ao impedir a demolição de um imóvel.

A cidade não é um aglomerado de construções com ruas entre elas. A cidade é um aglomerado de gente.

As construções, as ruas estão ali para servir “as gentes”.

A cidade é sua casa. Ela faz parte da sua vida. A padaria, o açougue, o McDonalds, a boite... Fazem parte da sua identidade.

As suas lembranças não são iguais as lembranças de seus pais, de seus amigos; são suas. São seu patrimônio.

Cabe a você preservar suas lembranças.

Quando você está esquecendo algo você vai lá e anota. Quando quer guardar um momento tira uma foto, grava em blueray...

Esse registro material agora são testemunhos do seu patrimônio.

O tal do patrimônio que bateu na minha porta veio com a conversa de proteger patrimônio coletivo.

Porque bem é verdade que brasileiro acha que público não é de todos, é de ninguém.

Mas ai se encontra o principal desafio: como convencer que a memória de um bairro, de uma cidade, a lembrança do cara que desenvolveu a cidade, trouxe progresso, a lembrança da dona Maria que cuidava dos doentes, do Tio João que contava histórias faz parte da memória pública, da memória coletiva, e como tal deve ser preservada por todos. Para todos.

Quem gere o coletivo é o poder público, então caberia ao poder público preservar a memória do grupo, mas nessa tentativa se esbarra em interesses privados, em leis tortas, no poder político e no lucro financeiro.

Se alguém te oferecesse uma pequena fortuna por sua caixa de fotos, pelo seu diário, pelas suas lembranças... Você ficaria tentado.

Até que ponto você resistiria a perda de suas lembranças?

Podes me falar: Foto já ta bom, pode derrubar o prédio. O vídeo daquela dança já ta bom, pode acabar com o grupo. Eu tenho aquela conversa do MSN salva não preciso mais de conversar com aquelas pessoas. Não é egoísmo nosso achar que só porque agora nos basta essas recordações não palpáveis que no futuro também bastará.

Será que não é egoísmo nosso achar que nossos filhos não precisam saber sobre o lugar em que vivem, quem construiu, quem morou, o que existia ali antes?

É uma história bizarra essa de proteger lembranças, mas ela é nosso patrimônio.

Nomear como Material ou Imaterial é apenas uma classificação.

Abrir um blog pra dividir as coisas da gente é uma maneira de se relacionar. Escrever sobre o que gostamos, o que nos deixa a fim, é guardar a memória e num blog é a maneira de repassa-la.

Esse blog é patrimônio do Rôdy, mas está na memória coletiva de quem o lê e só o ato binário de escrever e ser lido faz dele o que é. Se mudar algo deixa de ser o que é...

Assim que seja patrimônio de quem por aqui passou e de quem por aqui vai passar, porque acho que deve-se preservar pra isso.


2 comentários:

Marcella Valadares disse...

o luiz escreve demais. fato.
e eu gostei MUITO desse texto.

Robb' disse...

O Luiz escreve demais [2]

E Rody, não espere que eu vá escrever mais que ele!
hahaha
;D